No chão da Amazônia

Frt. Dione Afonso, SDN

“Logo em seguida, Jesus levou os discípulos a subirem na barca e ir na frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões” [Mt 14,22].

O evangelho narrado por João Marcos, no capítulo 4, traz a expressão ir para a outra margem, o outro lado, e, parafraseando Fernando Pessoa, “ir à outra margem é um abandonar”. Não há possibilidade de se abrir à sabedoria do Evangelho se não conhecemos o próprio Jesus. O não conhecer Jesus revela também um não se autoconhecer.

Ir para a outra margem é um sinal de obediência: é o próprio Jesus que nos aponta a direção e a barca. Ele nos pede para ir à frente, sem medo. É um sinal de fé: é preciso enxergar o outro lado, a terra firme, “terra à vista” como grita a criança no alto da gávea. É um sinal de despojamento: pois Jesus se despede das multidões, do outro lado do mar existe outro povo, outra história, outra cultura, outros desafios. Ir para a outra margem é abrir-se ao novo e a novas experiências, é, com coragem, sair de si, de suas estruturas e seguranças e lançar-se ao desconhecido.

Missionários Sacramentinos na outra margem 

Primeiro vem o ir para as periferias geográficas da missão que grita em nós um desejo ardente em “avançar para águas mais profundas e lançar as redes para a pesca” [Lc 5,4]. Pisar na Amazônia, era, para nós, um lançar-se sem medo e com esperança para o outro lado da margem. Estamos do outro lado do rio, literalmente. A Amazônia é um Brasil novo, um Brasil dentro do próprio Brasil. Sua riqueza, suas cores, sua biodiversidade, seu povo e seus ritmos nos encantam no primeiro olhar. É amor à primeira vista!

A Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora alimenta duas frentes de missão em Manaus, capital do Amazonas. A Área Missionária Tarumã foi a nossa porta de entrada. Formamos a primeira comunidade Sacramentina aqui em março de 2007. A Área Missionária Tarumã é uma região que se formou por famílias desabrigadas e que começaram a ocupar terrenos baldios onde começaram a montar suas barracas de lona na tentativa de ter um teto e de sobreviver. Foram ocupações atrás de ocupações. Famílias vindas de muitos lugares em busca de um cantinho. Assim, se formou Tarumã, uma Área Missionária da Arquidiocese de Manaus na qual os Missionários Sacramentinos atuam aprendendo com o povo essa cultura linda que é a Amazônia.

Do outro lado do rio, encontramos Tarumã

É o coração da Amazônia para nós. Um povo alegre, sorridente e de muita luta. Um povo marcado também por muita dor e uma história de superação.  Tarumã foi se formando assim. Por um povo muito simples que não desejava mais nada, a não ser um lugar para morar. Hoje é uma grande área, dividida em bairros e marcada por um povo festeiro e trabalhador. Aqui, encontramos de tudo: as ruas se dividem entre os curumins soltando papagaios e o esgoto a céu aberto escorrendo do lado. As barracas vendendo suas farinhas peixes, tempero e os carros disputando espaço com os pedestres.

Como está nos anais da história, no meio desse aglomerado de casas e de pessoas, “Cristo arma a sua tenda em vem morar na Amazônia”, os “Missionários Sacramentinos, assumem essa tenda e marcam presença na evangelização da Amazônia”. Hoje ainda nos deparamos com uma realidade bastante sofrida pelo povo amazonense. O descaso do poder público reflete na ausência de políticas públicas e dos direitos básicos para a dignidade humana. Visitamos as comunidades sempre que nos é permitido, sentamos com o povo, celebramos a vida com eles e partilhamos de suas alegrias e esperanças. Para eles, o Deus nosso é maior.

Das 22 capelas que compõem a Área Missionária Tarumã, temos três indígenas e três ribeirinhas. As ribeirinhas nos põem de volta à barca, atravessando o Rio Tarumã para chegar até os igarapés.

A comunidade Nossa Senhora Auxiliadora funciona numa escola pública, onde as crianças celebram conosco o dom da vida e da alegria. Os professores sempre contam com nossa presença missionária entre eles os auxiliando no trabalho cristão. A comunidade São Pedro, fica no igarapé do Caniço. Uma família que possui uma alegria contagiante. A festa de São Pedro nos colocou numa procissão fluvial, barcos e canoas subindo e descendo o rio, a fé acompanha o ritmo das águas que, calmas, tranquilas e limpas, abençoa e benze seus corpos.

Depois, uma comunidade ribeirinha numa aldeia indígena. A comunidade Santa Felicidade fica na aldeia Branquinho. O cacique e seu povo são pessoas de fé e celebram o nosso Deus juntos. Uma pequena aldeia de poucas famílias, mas uma multidão de crianças. A alegria reina naquele lugar. A nossa presença junto deles, mais nos ensina que nos leva a ensinar. Esse povo vive com muito pouco, com o necessário pra ser feliz. Não manifestam desejos de vingança e nem de ambição. Tiram da terra o próprio sustento e ainda nos pedem uma coisa: “padre, ensina-nos a rezar!”

Uma periferia existencial

Depois de vencer a geográfica, ficamos nas periferias existenciais. Homens e mulheres marcados pela dor, pelo esquecimento, pelo descaso… Nossas lideranças estão machucadas pela violência, pela morte, pela falta de oportunidades e de trabalho para sustentar a casa. Os filhos que não conseguem estudar, encontram na prostituição e no tráfico de drogas o meio de viver. Mas, viver que vida? Os assassinatos acontecem cotidianamente, a céu aberto e sem aviso. Essa é a nossa outra margem, para vir para a Amazônia é preciso coragem e força de vontade. Aqui não fica quem não se entregar a essas pessoas. Aqui não vive se não conviver com elas na mesma mesa.

É preciso, mais do que nunca, abraçar o anseio profundo de nosso Fundador, o Servo de Deus Pe. Júlio Maria De Lombaerde, e continuar gritando: “Eu, eu quero a Amazônia!”

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