PE. DEMERVAL E A TOCHA OLÍMPICA

Diác. Frt. Matheus R. Garbazza, SDN

A morte do querido missionário sacramentino Pe. Demerval Alves Botelho, SDN, não nos pegou de surpresa. Todos acompanharam com atenção, tensão e oração seus últimos dias nesta terra, sentindo com ele seu Calvário. Até seu último instante de consciência, deu o testemunho de um homem sereno e realizado com suas escolhas de vida – e, portanto, capaz de aceitar com terna resignação a sorte que Deus lhe reservara.

Durante o tempo do velório no Santuário do Bom Jesus, em Manhumirim, centenas de pessoas se fizerem presentes para prestar as últimas homenagens àquele grande homem. Eram sacerdotes, irmãos sacramentinos e irmãs sacramentinas, religiosos e religiosas, autoridades, leigos idosos, adultos, jovens e crianças. Cada um com uma história diferente para contar sobre aquele homem de 95 anos que marcou inúmeras vidas.

Contemplando seu corpo inerte e de semblante sereno, as vestes sacerdotais revelando seu ser, lembrei-me de uma imagem que ele sempre gostava de usar em suas falas: a da tocha olímpica, carregada por vários atletas que vão se revezando. Dizia-nos sempre, com os óculos na ponta do nariz: “olha meu filho, hoje nós estamos carregando a tocha olímpica da Congregação. Mas nós a passaremos para vocês que estão chegando. Não deixe que o fogo se apague, ouviu bem?”

A tocha recebida

De fato, nosso amado Pe. Demerval recebeu esta tocha olímpica sacramentina. Ele não a inventou. Quem a entregou em suas mãos foi o próprio Fundador, o Servo de Deus Pe. Júlio Maria. Para nós, jovens, que não conhecemos o Pe. Júlio, conviver com o Pe. Demerval era como uma passagem para o passado. Sentíamos que observávamos, por uma pequena fresta, o princípio de nossa história, o santo “missionário que veio de longe”.

Do Pe. Júlio Maria o “Pe. Dedé” recebeu o amor pela Igreja e pela Congregação. Queria sempre ser útil a elas, fazendo o bem e ensinando o caminho de Nosso Senhor. Esse amor manifestava-se sobretudo, como não poderia deixar de ser, em um amor pela humanidade: cultura, educação, artes, civilidade… Aí estava presente o zelo missionário do Fundador, procurando fazer penetrar o Evangelho nas estruturas e culturas.

Herdou também a devoção mariana, lembrando-nos de sempre dar aquela olhadinha terna ao passar diante da imagem de Nossa Senhora. E, a modo do Pe. Júlio Maria, a Virgem Santíssima logo ensina a olhar para Jesus presente no Santíssimo Sacramento. Fazia questão de que todos comungassem bem, participando assiduamente da liturgia em honra do Senhor.

A tocha carregada

Não apenas Pe. Demerval recebeu acesa a tocha olímpica de seu querido Pai, mas a carregou com dignidade por toda a sua vida – às vezes de forma heroica. Os diversos afazeres e cargos que desempenhou na Congregação nos permitem entrever o sentimento que estava em seu coração, desejoso de fazer todo o possível para que os Missionários Sacramentinos fossem relevantes à missão deixada por Nosso Senhor à sua Igreja. Caminhou de acordo com sua consciência, no desafio perene de adaptar-se aos métodos sem perder de vista o essencial a ser conservado.

Procurou levar tudo a sério e com fidelidade. Sempre o víamos com suas leituras espirituais, suas orações, seus gestos de caridade. Poucas vezes permitia-nos perceber as mortificações que fazia. A cada um que encontrava, dizia: “eu rezo por você! Uma Ave-Maria do meu terço diário é sua”. Ninguém sabe quantas Ave-Marias tinha seu terço, mas o fato é que rezava por todos. Nessa sua busca de fidelidade, acertou e errou – como é próprio da humanidade. Era muito culto, mas não sabia de tudo. Isso nunca o impediu de reconhecer seus limites, de pedir perdão. Viveu como todos vivemos: entristeceu-se, aborreceu-se, zangou-se, corrigiu e foi corrigido.

Carregou sobretudo a tocha olímpica das vocações e da formação. Foi o grande formador da Congregação. Direta ou indiretamente, acho que não exista um sacramentino de Nossa Senhora que possa dizer ter passado incólume por sua presença, sem ter aprendido algo com ele. Já com mais de 90 anos, fazia-se presente aos encontros vocacionais depois de ter percorrido vários quilômetros na tradicional Kombi do Seminário. Procurava levar aos encontros algum assunto que despertasse a boa caminhada dos jovens. Alguns temas mais atuais, outros meio desgastados pelo tempo… Mas sempre com uma proposta! Dizia-nos sempre dos três objetivos do Serviço de Animação Vocacional: formar boas pessoas, formar bons cristãos e, se for o caso, mostrar o caminho para o Seminário.

Nunca parou de carregar sua tocha olímpica. À medida que suas forças iam diminuindo, foi desacelerando. Foi-lhe triste não poder voltar mais à Santa Montanha, visitar a casa se transformou para ele no santuário de sua mãe, dona Levinda. Aliás, como era agradável acompanhá-lo nessa viagem, sempre preparada com insistência e severidade. Mas, chegando lá, se transformava! Ficava leve…

Mas, mesmo no fim, não parou! Na última visita que lhe fiz ainda em casa, um mês antes de sua morte, estava sentado ao computador. Ao seu lado, um velho livro: “Os hinos do Breviário Romano”. Empreendida alguma pesquisa, para somar-se aos seus inúmeros trabalhos.

A tocha transmitida

Por fim, que belo ver que Pe. Demerval transmitiu a tocha olímpica que recebera! Dele direi sempre: era um entusiasmador. Alegrava-se em ver que progredíamos. Não queria tudo para si, mas gostava de nos lançar nos trabalhos. Queria ver o sucesso dos outros, pois sentia que era sobretudo um sucesso da Congregação. Ao voltarmos das missões, mormente com as irmãs sacramentinas, perguntava sobre os frutos da missão: quem participou, quais os temas, por onde andamos…

Suas palavras foram sempre de ânimo: siga em frente, não desanime, aguente firme. Se percebia que alguém estava levando o fogo sacramentino por caminhos não muito seguros, procurava aproximar-se e chamar o sujeito à razão. Não se omitiu. Fez o que achava o certo. Mas não andava detratando os outros. Aliás, tinha até dificuldade em expor os conflitos, ainda que tenham existido. Basta ver com que leves tintas pintou os dilemas sacramentinos nos livros de nossa História. Era uma característica que lhe era muito peculiar.

E, quando Deus quis, entregou seu espírito. No mês das vocações, um dia após o dia do Padre. Uma memória mariana. A bandeira da Messis, símbolo da Pastoral Vocacional Sacramentina, estava estendida sobre o féretro. Chegara a hora de levá-lo ao Campo Santo. Os seus jovens vocacionados foram chamados para carregar à sua frente a velha bandeira. Logo se colocaram entre os padres e o velho mestre, cercando-o. Traziam lágrimas nos olhos – umas mais pesadas, outras mais discretas. Foi um dos momentos mais intensos de toda a cerimônia: belo e triste ao mesmo tempo. O coral cantava levemente: “Sou bom pastor, ovelhas guardarei…”

Ao semear o corpo do Pe. Demerval, com sua rica história, ficamos pensando nas sementes que serão agora colhidas. Era semente boa e caiu num bom terreno. Deverá frutificar trinta, sessenta e cem por um. Portanto, podemos perguntar: quem ficará em seu lugar? Quem levará adiante a tocha olímpica sacramentina?

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