Sacramentinos de Nossa Senhora, missionários há 90 anos

Pe. José Raimundo da Costa, SDN
-Superior Geral-

A queda da bolsa de Nova York em 1929 não foi o principal acontecimento para a Igreja do Brasil, mas a oficialização da fundação de uma congregação de missionários em terras brasileiras, no interior de Minas Gerais. Neste ano a pequenina Manhumirim, do leste de Minas, acolhia em suas terras o missionário belga, Pe. Júlio Maria De Lombaerde, que iniciou uma história de audácia e coragem extremada, tomando a peito a organização de um grupo de religiosos autóctones para missionar no Brasil. Foi a primeira congregação religiosa brasileira do ramo masculino. O Brasil passava por uma fase significativa em sua história sócio-político-econômico-religiosa. A Igreja desses tempos dava os primeiros passos na sobrevida de caminhar desatrelada do Estado – era o fim do padroado.

  1. A República leiga

Com a proclamação da República, a 7 de janeiro de 1890, logo se decreta a separação entre Igreja e Estado. Isto não se deu de forma pacífica e serena, mas sob um clima tenso da parte da Igreja contra o Estado e a sociedade constituída. As associações e paróquias passam a combater a circulação de ideias anarquistas, comunistas e protestantes através de jornais e revistas.

A partir da década de 30, o projeto desenvolvimentista e nacionalista de Getúlio Vargas influencia a Igreja no sentido de valorização da identidade cultural brasileira. A Constituição de 1934 prevê uma colaboração entre Igreja e Estado. Uma República leiga que não deixa de ser católica e sofre ainda as influências da Igreja. Contra a ascensão da esquerda, a Igreja apoia a ditadura do Estado Novo em 1937. São do período os Círculos Operários Católicos, favorecidos pelo governo para conter a influência da esquerda.

  1. Os Missionários Sacramentinos

Neste contexto eclesial, social, político e econômico que nasceu a Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento fundada pelo Pe. Júlio Maria De Lombaerde.

Nascia tímida e audaciosa no coração (berço) de um missionário impetuoso que desejava fazer de seus religiosos, gente empolgada com a missão, com a evangelização.

Muitas “investidas” dos missionários do Pe. Júlio Maria, ao lombo dos animais, em estradas e caminhos precários, marcava a presença da Igreja junto aos fiéis. A sacramentalização era acompanhada do exercício da Catequese ministrada pelos padres, irmãos e seminaristas e também pelas religiosas, as Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora.

Este grupo cresceu. Inicialmente, os membros foram formados pelo próprio fundador no Seminário de Manhumirim. Mais tarde, foram enviados para grandes centros de formação teológica nos seminários de Minas Gerais: Diamantina, Belo Horizonte, Mariana. Até a década de 60, a Congregação caminhou respirando com a Igreja a formação e influência do Concílio de Trento e do Vaticano I. Acompanhou com interesse e sintonia as sessões do Concílio Vaticano II, na década de 60 (1962-1965).

O pós-Concílio foi dramático para toda a Igreja. A Congregação estava aí nesse tempo sofrendo todas as consequências da mudança eclesial ocorrida na Igreja. Muitas saídas. Muitos membros foram embora. Os que ficaram se entusiasmavam com a nova primavera no corpo eclesial que fazia forte a consciência de uma Igreja Povo de Deus, sem estacionar nas observâncias de um poder hierárquico, mas na aventura de clérigos e povo caminhar juntos em direção da construção do Reino de Deus. Apesar da crise foi um tempo de muita efervescência na Igreja e na Congregação.

  1. A Partida para a Amazônia

Em 1973, o Pe. Geraldo da Silva Araújo, SDN, foi liberado pela Congregação para uma experiência missionária na Amazônia. Esteve por algum tempo em Altamira/Pará. Em julho de1973, partiu para o Mato Grosso. Começou os seus trabalhos por Sinop. Ele dizia: “No Norte do Mato Grosso está nascendo um Brasil movo e o povo está chegando. E a Igreja não pode chegar atrasado. Ela tem que estar lá para receber esse povo que está chegando”. De Sinop, foi estendendo seu trabalho até onde, hoje, é Alta Floresta. São várias as paróquias daquela região que nasceram com os Missionários Sacramentinos (Alta Floresta, Colíder, Carlinda, Nova Canaã, Paranaíta).

Em 1981, a Congregação chegou ao Estado de Rondônia quando assumiu a Paróquia Nossa Senhora de Vilhena na Rondônia (1981) ficando até janeiro de 1990.

Em 2007 os Missionários Sacramentinos dão mais um passo na Amazônia, assumindo a Área Missionária Tarumã na periferia de Manaus-AM. No ano seguinte, assumem a Paróquia de N.Sra.de Guadalupe, no bairro Flores.

  1. A opção pelo Nordeste

Na década de 90, estimulado pelas Irmãs Cordimarianas (que têm a sede e várias casas na região), a Congregação decidiu assumir casas no Nordeste brasileiro. Assim em 1992 foi assumida Paróquia de Nossa Senhora da Conceição na Pajuçara – Maracanaú-CE. Nessa cidade se erigiu a Casa de Formação Pe. Júlio Maria, onde, hoje, se acolhe os estudantes para o Propedêutico e para a Filosofia, além de manter uma obra de promoção social, o PROVIJE – casa que presta serviço na assistência social à população mais vulnerável com iniciativas de promoção social. Em 2004, no interior do Estado, na Diocese de Limoeiro do Norte foi assumida a Paróquia de Santa Rosa de Lima da Jaguaribara-CE. Depois de algum tempo a paróquia foi entregue e os missionários foram para a Diocese de Crateús-CE, bem no sertão cearense onde assumiram a Paróquia de Santo Anastácio do Tamboril-CE. Os missionários ficaram aí até fevereiro de 2018.

Em 1992 foi criada a Paróquia do Bom Pastor, desmembrada da Paróquia do São Lourenço do Manhuaçu-MG, assumida pelos Missionários Sacramentinos.

No novo século, XXI, os Missionários Sacramentinos constituíram Casa de Formação – Noviciado São José – na cidade de Matozinhos-MG, a convite do Bispo diocesano, na época, Dom José Lima. No ano seguinte, 2004, foi assumida a Paróquia do Senhor Bom Jesus do Matozinhos que mantém o santuário e o Jubileu do Senhor Bom Jesus.

  1. Missão Ad gentes – Continente africano

A Congregação tem se expandido! No início do ano de 2012, com muita coragem e audácia missionária, dois de seus membros foram enviados para o continente africano para trabalhar na missão, no país de Angola. Nosso fundador esteve em terras africanas, no começo de sua vida religiosa. Aliás este foi o primeiro impulso missionário que o levou a consagrar toda sua vida a Deus. Com 17 anos, ele ingressou na congregação dos Padres de Nossa Senhora d’África. Lá não pôde ficar devido ao seu estado de saúde. Adoeceu e teve que retornar à Europa.

Agora, seus filhos são enviados para continuar o que, certamente, pensou e idealizou um dia. No dia 15 de janeiro de 2012 chegavam dois padres, acompanhados pelo Superior, para assumir a Paróquia de Santo Antônio do Kavungo, Nana Candungo, no Município de Cazombo, com uma extensão geográfica de aproximadamente 26.000 km2, distante da sede Lwena, 530 km, quase tudo em estradas em chão e muito ruins.

A paróquia pertence à Diocese de Lwena que tem Dom Jesus Tirso Blanco, SDB como bispo diocesano. Por lá trabalharam Pe. João Lúcio Gomes Bemfica, SDN, e Pe. Renato Dutra Borges, SDN. Depois Pe. João Lúcio veio embora e o substituiu o Pe. Odésio Magno da Silva, SDN. Em 2018, Pe. Renato volta e no mês de abril foi Pe. Geraldo Magela de Lima Mayrink, SDN.

  1. Os Irmãos religiosos

Desde os inícios, o Pe. Júlio Maria pensou numa congregação composta de clérigos e também de irmãos, chamados de Irmãos Coadjutores. Quando professavam os Votos Religiosos, recebiam um nome religioso, diferente do de batismo. Eram chamados, desde então, pelo título de “Frei”.

Eles atuaram nas mais diversas funções como catequese, evangelização, magistério, escritores, administradores, profissionais das oficinas gráficas. Foram destaque, sobretudo na propaganda do o jornal O Lutador. Peregrinavam de cidade em cidade visitando as paróquias e famílias para propagar o jornal e colher as assinaturas.

Outro destaque de nossa Congregação foi o trabalho realizado por alguns dos irmãos na formação de liderança leiga desenvolvida pelo MOBON – Movimento da Boa Nova. A repercussão de seu trabalho não ficou restrito à Casa de Cursos, em Dom Cavati-MG, na Diocese de Caratinga, mas em cursos administrados em várias dioceses do Brasil. Através da reflexão da Palavra de Deus, de uma maneira catequética e orante oferece cursos da Campanha da Fraternidade e do Mês da Bíblia. Apesar do número reduzido, entre os irmãos há gente imbuída do espírito missionário que reforça o sentido primeiro da Vida Consagrada.

  1. Meios de Comunicação social

Nossa Congregação nasceu com a veia de escritor do Pe. Júlio Maria. Ele sempre escreveu. Tinha como objetivo a catequese e a formação do povo de Deus. Ele fundou o jornal O LUTADOR, pouco tempo depois de ter chegado a Manhumirim. Em novembro de 1928 o jornal já circulava. Além do jornal, Pe. Júlio foi um exímio escritor ocupando o primeiro lugar dos escritores católicos mais lidos em seu tempo.

O LUTADOR foi criado, com o objetivo defender a fé católica dos ataques protestantes, espíritas e maçons. Sua postura foi sempre lutar pela causa do Reino de Deus, com linguagens diversas e diferentes enfoques. Ele mantém uma grande variedade de temas e assuntos. Católico sim, mas não piegas ou fanático. Além dos temas estritamente religiosos e doutrinais o jornal interpreta assuntos e eventos da sociedade, do mundo, da atualidade sob a luz do magistério da Igreja. O Lutador está entre os maiores meios impressos de comunicação de cunho eclesial no Brasil e representa importante fonte de formação e informação.

Com impressos, a Congregação mantém o jornal Semente, órgão da Pastoral Vocacional distribuído entre os jovens vocacionados e nas paróquias; o boletim de circulação interna intitulado “Coisa Nossa”, onde o Superior Geral faz comunicações de ordem doutrinal-espiritual, de orientação da Vida Religiosa Consagrada. Além da comunicação impressa, os Missionários Sacramentinos têm grande atuação nos meios eletrônicos mantendo sites, páginas da Web e da rede social.

  1. Perspectivas para o futuro

Neste momento de quase duas décadas do século XXI, quando a Congregação completa 90 anos de existência, vejo-a imersa, por inteiro, na realidade eclesial missionária. Ela respira Igreja, desejosa de sempre dar uma resposta às demandas e apelos do mundo presente, na realidade diocesana por onde atua, nas Paróquias Missionárias, nos Meios de Comunicação Social, na Formação da Lideranças Leigas, no serviço da Caridade Social. Para sobreviver e se remeter para o futuro, ela não poderá nunca furtar-se da responsabilidade da Animação Vocacional e da Formação de seu quadro – os Missionários Sacramentinos.

O apelo é a Missão!  O fundamento da nossa ação missionária parte de uma espiritualidade eucarístico-mariana com a missão de “visibilizar entre os homens os frutos da Eucaristia: partilha, fraternidade, vida missionária, organização do povo “ [Const. 06]).

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