Pe. José Estevam de Paiva, SDN
“Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido” (Charles Chaplin)
Louvamos a Deus pelos mártires e santos do passado longínquo. Mas, entre nós Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, temos um testemunho de AMOR E SACRIFÍCIO, de um missionário Sacramentino, de um passado recente: Dom Antônio Felippe da Cunha, SDN. Sua vida resume o pensamento de Charles Chaplin dito acima. Um homem que por vivência primava pela “afeição e doçura”.
Conheci o Dom Felippe bem de perto. Pessoa impoluta, aconchegante, junto às pessoas e bem missionário. Desde janeiro de 1959 no pátio do Colégio Pio XI lá estava o Frater Felippe (junto com outros fratres: José Martins, Sebastião Braz, José Hipólito, Tonaco e outros...) muito alegre e jovial (de batina cinza), simpático e elegante.
Mais tarde quando entrei para o Educandário Sacramentino (Seminário) de Espera Feliz, encontrei-me de novo com ele. Estava entre nós, o Pe. Felippe (o Felipão), como professor e auxiliar na formação. Era aquela presença que espargia ânimo e alegria no meio de nós. Pe. Felippe era próximo dos seminaristas de então.
Como Padre por onde passou, era aquela presença missionária e muito animado com o povo. Sabia se aproximar das pessoas animando as lideranças e criando laços. Sabia usar seus dons humanos para melhor levar o evangelho e atrair o povo para a Igreja.
Nas paróquias por onde esteve, deixou um caminho aberto para o povo, emoldurando as comunidades do jeito de ser eucarístico-mariano. Tinha um apreço muito grande no atendimento às comunidades, na formação de lideranças e das comunidades, incentivava a juventude.
Ainda nos meus primeiros anos como padre, em Espera Feliz, ele me convidou para orientar um retiro para os nossos formandos (de Filosofia e Teologia). Foi durante um Capítulo Geral. Ele apenas me entregou o livro MOSTRA-ME O TEU ROSTO, (de Inácio de Larrañaga). Apenas assim e nada mais. Nunca orientei um retiro na minha vida. Com disposição e vontade coloquei-me à serviço. Entre os formandos daquele tempo estavam José Raimundo da Costa, Domício Herculano, Élcio Gorini e etc. Eram 18 formandos.
O Pe Felippe tinha uma postura missionária que falava à Igreja da época e influenciava a Vida Consagrada. A CRB Nacional sabendo de seu testemunho na Congregação o convidou para ser membro da Diretoria Nacional. Por alguns anos esteve junto nas reuniões no Rio de Janeiro e assembleias, animando a Vida Religiosa do Brasil. Era muito querido na Diretoria Nacional e por onde passava. Sempre que ia para as reuniões levava algum agrado para os membros da CRB Nacional.
A Igreja, através da CNBB, sabendo de sua presença muito missionária, sobretudo na Diocese de Caratinga e no Governo Geral dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, o indicou para o Episcopado. E um tempo depois foi ordenado Bispo de Guanhães-MG.
No pouco tempo de Bispo de Guanhães, deixou marcas de um Bispo Pastor, acolhedor e bem missionário, próximo de seu rebanho. Um Bispo acolhedor com gestos fraternos com o seu clero. Mas, bem no início do seu pastoreio em Guanhães, foi acometido de uma doença que o abateu depressa, infelizmente. E tomando consciência de sua fragilidade ele me ligou perguntando se poderia voltar para Manhumirim e morar conosco na Casa-Mãe (nossa Casa Geral). Ficou conosco apenas alguns meses.
Na época eu estava exercendo a função de Superior Geral e indo visitar as comunidades do Oeste de Minas (Dores do Indaiá e Bom Despacho), fiz um convite a ele para me acompanhar e ele aceitou. Porém, na véspera de nossa viagem, à tardinha, ele me gritou da Praça da Matriz de Manhumirim, que naquela noite viajaria para Belo Horizonte de ônibus, pois no dia seguinte iria conversar com o Pe. Sebastião (seu primo e Psicólogo). Ele me disse assim: “vou antes para conversar com o Pe. Sebastião para que ele me dê alguns ajustes psicológicos e assim poder viver mais algum tempo”. E viajou. No dia seguinte eu o apanharia em Belo Horizonte rumo ao Oeste de Minas. Ainda bem de manhã, quase saindo em viagem, chegou a notícia do seu falecimento. Foi um momento de muita comoção para todos nós.
Concluo com algumas características marcantes do Pe. Antônio Felippe da Cunha, como Superior Geral: uma pessoa muito humana; e de grande dedicação à obra congregacional; amava a Congregação e se entregou por ela de corpo e alma; sabia ouvir os religiosos e as pessoas na missão, com calma, atenção e respeito. Fez tudo para transformar nossa Congregação, tornando-a bem missionária. Seu ministério era envolto de misericórdia. Como Superior Geral dava uma atenção especial às Casas de Formação.
Coloquei ainda alguns aspectos vivenciais da pessoa do saudoso e inesquecível Dom Felippe. Ele me inspirou muito na minha Vida Consagrada Sacramentina.
Fonte: Coisa Nossa, Ano LII, nº 267, setembro/outubro de 2026, p. 6-7.